sábado, 29 de dezembro de 2012

O meu caso- Conclusão

Bom, mas como conclusão desta história, eu destaco o facto de quase me ter transformado num VEGETAL, num ser que só respira, desprovido de todas as características e qualidades HUMANAS a que eu me havia habituado ao longo dos anos e com que convivia diariamente. A minha nova médica salvou-me a VIDA, tal como a conheço e desejo diariamente. Hoje sou um bom PAI, um bom FILHO, um bom AMIGO, um bom MARIDO, um bom PROFISSIONAL, e não um INVÁLIDO.

TER UM SURTO PSICÓTICO NÃO É SER ESQUIZOFRÉNICO

O meu caso- parte V (Reviravolta e atualidade)

Com efeito, hoje em dia não só recuperei o meu estado anterior a todo este processo, como ainda me sinto com uma força e uma felicidade de viver incomparáveis. Por outras palavras, nunca me senti tão bem.

Em relação ao meu "jovem" médico, decidi ir a uma última consulta para partilhar com ele, julguei eu no seu interesse profissional, tudo aquilo que me tinha acontecido de bom ao ter mudado de médico e de medicação, assim como a explicação (fornecida pela minha atual médica) para eu me ter sentido tão mal ao longo daqueles dois anos: eu nunca fui esquizofrénico, o que eu tive foi um surto psicotico de base depressiva, e por isso os neuroléticos que me foram administrados, se numa primeira fase foram adequados para controlar o surto, numa segunda fase revelaram-se totalmente desadequados e teriam de ser substituídos por outros medicamentos. Além de todos os sintomas que fui descrevendo ao meu anterior médico ao longo daqueles dois anos, e que na minha opinião teriam sido suficientes para que ele revisse o meu diagnóstico (tivesse, este último, sido ou não herdado do primeiro médico que me acompanhou no internamento), haveria pelo menos outra forma de desconfiar do diagnóstico e da eficácia da terapêutica: habitualmente, os esquizofrénicos são ávidos por neuroléticos, e o meu caso era o contrário disso. Bom, mas julgo que não terei escolhido bem o dia para partilhar com o meu médico anterior estes factos. Com ele, nesse dia, encontrava-se uma estagiária de medicina. Achei-o, não sei se por isso mesmo, particularmente alegre e expansivo. Acerca do que lhe contei, devolveu-me sempre os seus próprios antigos argumentos, defendendo a terapêutica que me tinha administrado. A sua reação naquele momento foi de aparente impermeabilidade àquela nova realidade que eu lhe trazia, evidenciando um à vontade e uma determinação que contrastavam com a inevitabilidade dos novos factos. Na despedida, desejou-me boa sorte porque, e cito, "vai precisar". Eu desejei-lhe boas consultas. Achei que a minha ida lá tinha sido em vão, mas não tenho a certeza disso.

O meu caso- parte IV (Início da reviravolta)

Procurei um novo médico e tive muita sorte. Encontrei uma médica que me ouviu com atenção, que me traçou um novo diagnóstico discordando do que eu lhe disse ser o diagnóstico do meu anterior médico. Propôs-me a substituição imediata de todos os medicamentos que eu estava a tomar por outros receitados por ela e eu concordei. A pouco e pouco fui-me libertando das amarras químicas que me vegetalizavam. Sentia de dia para dia o meu corpo a voltar ao normal, as minhas reações a darem-se em tempo útil, o meu ânimo a voltar, enfim, à medida que os medicamentos anteriores iam saindo do meu organismo, comecei a sentir que estava a voltar à pessoa que outrora conhecia como "eu". E foi então que progressivamente fui reabilitando as minhas relações pessoais, sociais, profissionais, amorosas. Nunca tive uma recaída psicótica.

O meu caso- Parte III (Alta e novo médico)

Após um mês de internamento e de ter conseguido ter algumas consultas com o médico que me acompanhava, tive alta em estado dito compensado.  De facto, na maior parte do tempo sentia-me com os pés na terra, mas não me sentia bem. O meu percurso medicamentoso levou-me a tentar acreditar que a forma como me sentia era o meu estado normal, ou o meu novo "eu". Mas por mais que tentasse não me conseguia convencer de que eu agora era assim, de que esse era o meu novo estado normal. Como nunca me sentia bem, não me conformei, e essa foi a minha sorte. O meu novo médico não ajudou. Sempre lhe fui descrevendo o meu estado o mais pormenorizadamente possível, sempre lhe fui dizendo que não me sentia bem: que me faltava ânimo, forças, que me sentia lento, que não conseguia reagir a tempo às coisas, que tinha acessos de ansiedade, que tinha enorme dificuldade em lidar com os desafios profissioais diários, que não tinha alegria para nada, que o meu corpo não respondia, que a minha sexualidade não existia, que me sentia "vegetalizado". O médico não me comunicou nenhuma revisão do diagnóstico (curiosamente, herdou do médico anterior, que se reformou e que me passou a ele, o facto de nunca me ter revelado qual era o meu diagnóstico), ao longo de dois anos de tratamento com quase nenhuma melhoria efetiva; e quando eu comecei a perder as forças para permanecer na minha luta diária (principalmente profissional) extremamente extenuante e frustrante, optou por aumentar as doses de alguns dos medicamentos (cheguei a ir trabalhar debaixo de 2 mg de Xanax, fora os outros), assegurando-me sempre que a medicação que eu tomava era a melhor do mercado, era tudo de 3ª geração, e que não provocava efeitos secundários significativos. Ao mesmo tempo alargou o tempo entre consultas, alegando que eu estava a dar sinais de pouca autonomia.
Um parêntese acerca do meu novo médico. Tinha cerca de 32, 33 anos, era uma pessoa prática, mantinha comigo uma relação profissional condimentada por uma intermitente cumplicidade do estilo "amigos dos copos" ou "nós os gajos", onde cabiam umas asneiradas ocasionais que pareciam fazê-lo sentir-se bem. Sobre a minha "impotência sexual", alertou-me para o facto de eu já ter 36 anos, e de as coisas poderem já não ser as mesmas do que aos 18, ilibando sempre qualquer dos medicamerntos que eu tomava. Paradoxalmente, referiu que ele próprio, pelo contrário, nunca tinha tido tanta "saída" como naquela altura (recorde-se que ele tinha 30 e poucos anos e estava a falar com um paciente de 36 anos que se encontrava "impotente" há mais de 2 anos). Quando o questionei acerca do meu percurso como doente, disse-me que se encontrava satisfeito, mas fez-me saber que ele era um cético, como médico, em relação à melhoria e recuperação dos doentes.
Bem, mas voltemos. Realmente o meu suplício laboral acabou por me esgotar ao ponto de não conseguir ir trabalhar e de ter de meter baixa (sempre foi um ano e dois meses de luta incessante diária). O meu médico reagiu bastante mal ao meu pedido de baixa, mostrando-se aborrecido, contrariado, demonstrando-o exlicitamente e referindo-o. Eu na mesma altura mostrei-me aborrecido face à sua atitude. Lá me passou a baixa, escrevendo pela primeira vez o que vim a descobrir ser o seu diagnóstico (seria um diagnóstico próprio ou herdado do médico anterior?) face ao meu quadro clínico: esquizofrenia paranóica. Paralelamente, decidiu traçar o que julgava um bom plano para mim: a reforma antecipada por invalidez. Tudo isto me deixou bastante preocupado e decidi procurar outro médico.

O meu caso- Parte II (O Internamento)

As pessoas que gostavam de mim não conseguiam chegar até mim, não conseguiam estabelecer nem manter a comunicação. E foi então que os meus pais, completamente desesperados, acionaram os mecanismos de internamento compulsivo. Fizeram muito bem. Se não o tivessem feito, provavelmente eu teria morrido, já que conduzia veículos extremamente potentes em condições psíquicas que, vejo agora, não eram as melhores.

O internamento foi uma experiência difícil. Primeiro, o próprio ato de internamento compulsivo, o obrigarem-me a despir-me completamente à frente de enfermeiras, enfermeiros, um médico, dois agentes da polícia, tudo pessoas desconhecidas para mim. Ainda os ameacei, a todos se bem me lembro, e gritei muito, mas quando levei a injeção não me lembro de mais nada.

Acordei depois e já estava em regime de internamento. O ambiente era surrealista. Sempre fui fazendo a minha higiene pessoal, mas era muito difícil de manhã conseguir encontrar roupa lavada que me servisse. Felizmente sempre me deixaram fumar, o que foi ótimo, já que era a única coisa que me dava um certo alento ali fechado. Custava-me habitar o mesmo espaço com muitas pessoas que apresentavam patologias muito diversas, pois tinha a sensação iminente de que se podiam gerar conflitos sérios por razões perfeitamente fúteis. Aliás, houve uma vez que presenciei isso mesmo. Um dos doentes decidiu provocar outro gratuitamente, tocando num ponto que para o segundo era sensível. Este irrompeu numa fúria que culminou em agressão e foi prontamente dominado, preso com correias e sedado. Eu próprio vi-me numa situação difícil, quando um dos doentes interpretou mal uma saudação que lhe fiz. Ele simplesmente não conseguia passar à frente daquele mal entendido, não ouvia as minhas explicações, e só fui salvo por outro doente que se interpôs e que o desencorajou de me agredir, dizendo "Deixa o rapaz em paz, não vês que ele não faz mal a ninguém?". Refira-se em abono da verdade que este paciente que me "salvou" tinha sido apanhado no dia anterior, por mim, a roubar-me dinheiro; mas não só o desculpei como lhe dei algum dinheiro para ele comprar o que queria.

O médico que passou a acompanhar o meu caso no internamento era difícil de encontrar. Quando perguntava quando podia falar com ele, diziam-me o dia e hora, mas depois era tudo muito complicado. Ele não estava no gabinete, não havia senhas, não havia marcações. Eu ficava por ali a ver se ele chegava, até que ia fumar um cigarro e já não sabia se ele entretanto tinha chegado, pois não conseguia ver se estava alguém dentro do gabiente, nem sabia qual era a ordem entre os poucos e erráticos doentes que se encontravam cá fora. Muitas vezes não sabia se podia ser atendido nem quando. Nas vezes em que fui consultado, estranhei ( e manifestei-o mais do que uma vez) que o médico parecesse adormecer enquanto eu falava com ele. Fechava os olhos, via-se o músculos a relaxarem, e a cabeça e ocasionalmente o tronco iam oscilando, cambaleando. Nunca me revelou o diagnóstico que tinha sido feito do meu caso.

O meu caso psquiátrico- Parte I

Começarei por fazer um breve apanhado do episódio psiquiátrico em que me vi envolvido e que quase resultou na minha morte, seja a morte física seja a morte da minha pessoa emocional, intelectual, social e profissional (passando a viver num estado vegetativo).

Tudo começou por uma série de factos da minha vida pessoal, que culminaram numa depressão galopante, acerca da qual não me apercebi. A tristeza profunda, o isolamento familiar e social, inseriram-se progressivamente no meu dia a dia, o que misturado com a agressividade de que era alvo frequentemente me fizeram começar a procurar em casa os meus refúgios, locais marcados simultaneamente por uma sensação de paz temporária e de frustração.

Esta depressão foi evoluindo e levou a que tivesse feito um surto psicótico. Mais uma vez não me apercebi, não soube interpretar os sinais e não reconheci que estava doente. A minha lógica diária alterou-se, mas para mim continuava a fazer sentido, já que continuava a ser coerente de uma certa maneira. Algumas das minhas atitudes também se alteraram, o que teve custos elevados junto dos meus colegas de profissão, junto dos meus pais, junto dos meus amigos, junto da minha filha. Cortei relações com quase todos e embarquei a plenos pulmões na minha aventura psicótica, completamente sozinho à exceção das entidades que povoavam o meu novo mundo psicótico e que eram no fundo todos os que me rodeavam (apesar de esta parte ser difícil de explicar, digamos que revesti as pessoas anónimas de uma familiaridade sobrenatural que as tornava participantes na minha missão secreta). Hoje, olhando para trás, vejo que fiz e disse muitas coisas estranhas que jamais faria e diria se estivesse compensado. Porém, e congratulo-me por isso, nunca ouvi vozes, nunca agredi ninguém fisicamente mesmo sob provocação e ameaça diretas, nunca cometi qualquer  crime, nunca fui detido.