sábado, 29 de dezembro de 2012

O meu caso- Parte II (O Internamento)

As pessoas que gostavam de mim não conseguiam chegar até mim, não conseguiam estabelecer nem manter a comunicação. E foi então que os meus pais, completamente desesperados, acionaram os mecanismos de internamento compulsivo. Fizeram muito bem. Se não o tivessem feito, provavelmente eu teria morrido, já que conduzia veículos extremamente potentes em condições psíquicas que, vejo agora, não eram as melhores.

O internamento foi uma experiência difícil. Primeiro, o próprio ato de internamento compulsivo, o obrigarem-me a despir-me completamente à frente de enfermeiras, enfermeiros, um médico, dois agentes da polícia, tudo pessoas desconhecidas para mim. Ainda os ameacei, a todos se bem me lembro, e gritei muito, mas quando levei a injeção não me lembro de mais nada.

Acordei depois e já estava em regime de internamento. O ambiente era surrealista. Sempre fui fazendo a minha higiene pessoal, mas era muito difícil de manhã conseguir encontrar roupa lavada que me servisse. Felizmente sempre me deixaram fumar, o que foi ótimo, já que era a única coisa que me dava um certo alento ali fechado. Custava-me habitar o mesmo espaço com muitas pessoas que apresentavam patologias muito diversas, pois tinha a sensação iminente de que se podiam gerar conflitos sérios por razões perfeitamente fúteis. Aliás, houve uma vez que presenciei isso mesmo. Um dos doentes decidiu provocar outro gratuitamente, tocando num ponto que para o segundo era sensível. Este irrompeu numa fúria que culminou em agressão e foi prontamente dominado, preso com correias e sedado. Eu próprio vi-me numa situação difícil, quando um dos doentes interpretou mal uma saudação que lhe fiz. Ele simplesmente não conseguia passar à frente daquele mal entendido, não ouvia as minhas explicações, e só fui salvo por outro doente que se interpôs e que o desencorajou de me agredir, dizendo "Deixa o rapaz em paz, não vês que ele não faz mal a ninguém?". Refira-se em abono da verdade que este paciente que me "salvou" tinha sido apanhado no dia anterior, por mim, a roubar-me dinheiro; mas não só o desculpei como lhe dei algum dinheiro para ele comprar o que queria.

O médico que passou a acompanhar o meu caso no internamento era difícil de encontrar. Quando perguntava quando podia falar com ele, diziam-me o dia e hora, mas depois era tudo muito complicado. Ele não estava no gabinete, não havia senhas, não havia marcações. Eu ficava por ali a ver se ele chegava, até que ia fumar um cigarro e já não sabia se ele entretanto tinha chegado, pois não conseguia ver se estava alguém dentro do gabiente, nem sabia qual era a ordem entre os poucos e erráticos doentes que se encontravam cá fora. Muitas vezes não sabia se podia ser atendido nem quando. Nas vezes em que fui consultado, estranhei ( e manifestei-o mais do que uma vez) que o médico parecesse adormecer enquanto eu falava com ele. Fechava os olhos, via-se o músculos a relaxarem, e a cabeça e ocasionalmente o tronco iam oscilando, cambaleando. Nunca me revelou o diagnóstico que tinha sido feito do meu caso.

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