sábado, 29 de dezembro de 2012

O meu caso- Parte III (Alta e novo médico)

Após um mês de internamento e de ter conseguido ter algumas consultas com o médico que me acompanhava, tive alta em estado dito compensado.  De facto, na maior parte do tempo sentia-me com os pés na terra, mas não me sentia bem. O meu percurso medicamentoso levou-me a tentar acreditar que a forma como me sentia era o meu estado normal, ou o meu novo "eu". Mas por mais que tentasse não me conseguia convencer de que eu agora era assim, de que esse era o meu novo estado normal. Como nunca me sentia bem, não me conformei, e essa foi a minha sorte. O meu novo médico não ajudou. Sempre lhe fui descrevendo o meu estado o mais pormenorizadamente possível, sempre lhe fui dizendo que não me sentia bem: que me faltava ânimo, forças, que me sentia lento, que não conseguia reagir a tempo às coisas, que tinha acessos de ansiedade, que tinha enorme dificuldade em lidar com os desafios profissioais diários, que não tinha alegria para nada, que o meu corpo não respondia, que a minha sexualidade não existia, que me sentia "vegetalizado". O médico não me comunicou nenhuma revisão do diagnóstico (curiosamente, herdou do médico anterior, que se reformou e que me passou a ele, o facto de nunca me ter revelado qual era o meu diagnóstico), ao longo de dois anos de tratamento com quase nenhuma melhoria efetiva; e quando eu comecei a perder as forças para permanecer na minha luta diária (principalmente profissional) extremamente extenuante e frustrante, optou por aumentar as doses de alguns dos medicamentos (cheguei a ir trabalhar debaixo de 2 mg de Xanax, fora os outros), assegurando-me sempre que a medicação que eu tomava era a melhor do mercado, era tudo de 3ª geração, e que não provocava efeitos secundários significativos. Ao mesmo tempo alargou o tempo entre consultas, alegando que eu estava a dar sinais de pouca autonomia.
Um parêntese acerca do meu novo médico. Tinha cerca de 32, 33 anos, era uma pessoa prática, mantinha comigo uma relação profissional condimentada por uma intermitente cumplicidade do estilo "amigos dos copos" ou "nós os gajos", onde cabiam umas asneiradas ocasionais que pareciam fazê-lo sentir-se bem. Sobre a minha "impotência sexual", alertou-me para o facto de eu já ter 36 anos, e de as coisas poderem já não ser as mesmas do que aos 18, ilibando sempre qualquer dos medicamerntos que eu tomava. Paradoxalmente, referiu que ele próprio, pelo contrário, nunca tinha tido tanta "saída" como naquela altura (recorde-se que ele tinha 30 e poucos anos e estava a falar com um paciente de 36 anos que se encontrava "impotente" há mais de 2 anos). Quando o questionei acerca do meu percurso como doente, disse-me que se encontrava satisfeito, mas fez-me saber que ele era um cético, como médico, em relação à melhoria e recuperação dos doentes.
Bem, mas voltemos. Realmente o meu suplício laboral acabou por me esgotar ao ponto de não conseguir ir trabalhar e de ter de meter baixa (sempre foi um ano e dois meses de luta incessante diária). O meu médico reagiu bastante mal ao meu pedido de baixa, mostrando-se aborrecido, contrariado, demonstrando-o exlicitamente e referindo-o. Eu na mesma altura mostrei-me aborrecido face à sua atitude. Lá me passou a baixa, escrevendo pela primeira vez o que vim a descobrir ser o seu diagnóstico (seria um diagnóstico próprio ou herdado do médico anterior?) face ao meu quadro clínico: esquizofrenia paranóica. Paralelamente, decidiu traçar o que julgava um bom plano para mim: a reforma antecipada por invalidez. Tudo isto me deixou bastante preocupado e decidi procurar outro médico.

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